sexta-feira, 10 de julho de 2009

O conforto de uma mão


A capelã Eleny Vassão explica como, mesmo que não seja da maneira que esperamos, Deus nos tira da situação difícil, curando-nos ou afastando inimigos


Porque, chegando à Macedônia, nenhum alívio tivemos, pelo contrário, em tudo fomos atribulados: lutas por fora, temores por dentro. Porém Deus, que conforta os abatidos, nos consolou com a chegada de Tito." 2Co 7.5,6

Gustavo era um menino pequeno, de olhos bem verdes, esperto. Sem muita paciência, ele aguardava ser chamado para outra sessão de quimioterapia naquele hospital tão seu conhecido.

O garoto não sabia bem qual era o seu problema. Só sentia que estava doente e sabia que teria de tomar muitos remédios, mas não podia entender a gravidade da situação.

Ele se aproximou da mesinha onde estavam as outras crianças a quem contávamos histórias bíblicas e incentivávamos a colorir os desenhos sobre a mesa enquanto elas aguardavam o tratamento. Curioso, ele perguntou: "Posso desenhar também?" Sentou-se ao meu lado, ouviu a história bíblica e desenhou sossegado.

Aproximei-me de sua mãe e começamos a conversar. Ouvi seus medos e dúvidas e, então, pude lhe mostrar a presença de Cristo naquele lugar por meio de uma história bíblica.

Contei-lhe sobre o cuidado de Deus em providenciar tão rapidamente uma vaga para o tratamento, mostrando-lhe que esse já era um milagre em sua vida. Muitas vezes queremos que Deus faça um milagre como achamos que deva ser um, e não enxergamos o milagre diante de nós.

Os meses se passaram e, durante quase dois anos, eu o encontrava todas as quintas-feiras pela manhã, às vezes com vontade de conversar, às vezes bravo, como uma criança normal, cheio de sonhos e vontades.

Em uma quinta-feira, a mãe de Gabriel não pôde estar com ele. Em seu lugar, veio Dulce, a avó que, com muita paciência, respondia a todas as suas questões. Eu só ouvia do box ao lado: "Vó Dulce, por que o time se chama Botafogo? Por que alguém pôs fogo? Por que o time se chama Ponte Preta? Por que alguém pintou a ponte de preto?"

Enquanto me divertia ouvindo aquela conversa, a vó Dulce reclamou de sede. Acabei o artesanato que fazia com outra criança e fui ajudar Gustavo, para que sua vó fosse beber água. Como ele não estava com a bolsa de água morna para colocar no braço, eu deveria colocar minha mão sobre a sua veia de seu braço esquerdo, aquecendo-a para diminuir a dor, enquanto a medicação entrava (a medicação da quimioterapia arde muito na veia, mas a dor diminui com o calor).

Entretanto, percebi que, em sua cadeira, estava meio escondida sua luva plástica amarrada e cheia de água morna. Perguntei a razão de a luva estar na cadeira e não em sua veia. Sem pensar duas vezes, ele respondeu: "Acontece, tia, que mão de gente é bem melhor do que luva de plástico!".
Naquele dia aprendi uma grande lição de vida com Gustavo: é claro que, em caso de dor e medo, a mão humana é bem melhor que uma luva!

Realmente, nosso ministério de capelania hospitalar, levando conforto e esperança aos enfermos e seus familiares, é único. Muitas vezes, no mesmo dia e com o mesmo paciente, choramos e sorrimos muito.

O amor de Deus é tão grande que me permite senti-lo a cada dia, capacitando-me para aprender, com crianças como Gustavo, que "mão de gente é bem melhor que uma luva de água morna".

Paulo, o apóstolo, também enfrentara grandes sofrimentos, ao chegar à Macedônia. Lutas por fora e temores por dentro tiravam seu ânimo, deprimindo seu coração, tornando difícil continuar a caminhar no ministério. Quando estamos assim, sentimo-nos solitários, como se a nossa dor fosse única e não pudesse ser compartilhada com mais ninguém.

Mas o nosso Deus está atento a tudo que nos acontece e Ele sempre responde nossas orações. Nem sempre da maneira como esperamos, tirando-nos da situação difícil, curando-nos ou afastando de nós inimigos perversos, mas Ele está conosco e nos ensina as melhores lições na hora da dor.

No caso de Paulo, Deus não lhe repreendeu por estar sofrendo, não o acusou de ter pouca fé, não o estimulou a mascarar ou negar sua dor. Deus o ouviu, sensível ao abatimento de sua alma, e enviou-lhe, como resposta à sua oração, Tito, o consolo em forma de gente. Ele lhe trazia a alentadora notícia sobre o amor e os cuidados da igreja de Corinto com a sua pessoa.

Agora Paulo não mais se sentia sozinho em meio a suas lutas. Sabia que todos estavam com saudades dele, pensando, chorando e orando por sua vida. Ele não estava só. Outros queridos também estavam com ele. Mesmo que à distância, estavam ligados por laços de amor, que ninguém poderia cortar.

Tito ficou com ele. Era alguém de pele e osso, com quem podia chorar, compartilhar suas lutas, rir de coisas pequenas e quase sem graça. Era alguém em quem podia confiar e abrir seu coração, sem medo de ser recriminado.

Quantas vezes, ao contemplarmos o sofrimento de pessoas ao nosso redor, temos nos omitido, pois a dor do outro nos deixa sem palavras ou não temos a explicação que, imaginamos, daria motivo ao seu sofrer.

É importante sabermos que nem sempre os sofredores estão buscando por respostas. Mas, com certeza, eles estão sempre procurando por uma mão amiga e quente, que alivie a dor de seu coração.

Todos os recursos da técnica mais moderna da medicina não conseguem substituir a presença de uma mão amiga que, no momento do ardor na veia, simplesmente se repouse sobre a mão do outro, aquecendo a sua pele e a sua alma.

Como Gustavo, não podemos nos esquecer que "mão de gente é bem melhor que uma luva de água morna".

Por: Eleny Vassão de Paula Aitken
Todos os direitos reservados à Editora Mundo Cristão


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